Ser pessoa. Sobre o Atentado em Manchester e a resposta a Salvador Sobral.

Ser pessoa. Ponto.

No fundo tudo se resume a isto. Algumas figuras públicas gostavam que os atentados terroristas não se noticiassem. Entre elas, Salvador Sobral.

Ao Salvador Sobral eu gostava de dizer que o sofrimento humano é notícia todos os dias e que assim deve ser. Alguém morre aqui, alguém sofre acolá. Alguém sofre de injustiça, alguém salvou alguém. Não é uma questão de racismo, nem de islamofobia. Trata-se da humanidade em nós, que alerta para os que sofrem, é algo natural. Ele devia saber.

Pergunto-me, como médica, como pessoa, se quem pretende a minimização a gravidade dos atentados pretenderá diminuir a gravidade do ato de tirar a vida a um ser humano? Não saberão eles o que é a morte?

O último ato de violência, o mais grave, o irreparável. A violência tão avassaladora que abana a alma para fora do corpo. A lâmina, o estilhaço tão forte que desiquilibra violentamente o precioso equilíbrio do organismo que albergava a vida feliz de uma criança.

Talvez se deva reflectir sobre estas coisas simples. Na verdade quando os atentados se tem tornado cada vez mais frequentes, algum grau de novidade se vai perdendo. Talvez seja isso, Salvador, talvez. Talvez tenha perdido interesse nas esplanadas de Lisboa, aos finos do fim da tarde entre Salvador e os amigos, do alto das suas boas famílias, quando a vida corre bem, talvez empalideçam os miolos e os intestinos das crianças que rolaram pelas ruas de Manchester. Talvez o sangue vivo brilhante da saúde de quem a perdeu, empalideça e fique cor-de-rosa, como a cor do por-do-sol, nesses dias especiais… quando a vida, corre, bem…

Pior que a grotesquidão visceral, são as noites dos pais que perderam os filhos, dos maridos que perderam a esposa, dos filhos que perderam os pais. São quem não morreu, mas quase morreu, em quem algo no corpo, uma parte da alma. São as noites em branco de quem anseia por alguém que não volta mais, é a crueldade da morte. A morte é cruel. Quem mata é cruel.

A morte que chega antecipada, não deve ficar ocultada, sem resposta. Qual ocultação de cadáver?.. O silenciamento dos que sofrem é atroz, de certeza. Talvez encaixe encobrir os atentados, pedra sobre pedra sobre castelos de nada, em conversas de quem só se preocupa com a moda. A moda é defender o islão. A moda é ser moderno e a moda nunca é real, nunca serve para mais do que para nela estar, enquanto durar. É uma construção frásica que não sente nada e que o tempo apaga.

Salvador, artista, com mão delicadas, não lava o sangue da estrada com a mangueira, não faz penso e não cura as feridas, não consola, não trata, não vê criança na mesa da autópsia, não sente o dever de medicar a dor que fica para trás, às vezes, irreparável.

Tudo se cala. Cicatrizes por dentro e fora da roupa.

Há-de vir um dia, que por moda, as vítimas dos atentados não possam gritar. Por força da moda. Não possam revoltar-se, sentir raiva nem dor. Aí só há-de ficar o silêncio no coração dos que sofrem. Aqueles que todos os dias, em cada passo, os fantasmas clamam por eles para os levar para o caminho das trevas, onde toda a vida se torna um Inferno. Onde a normalidade da esplanada é impossível, eternamente desbotada por um animal negro feroz, um sol preto, dentes para não sorrir.

Sentir é também sentir a dor dos outros. Não é ser médico, é ser pessoa.

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3 thoughts on “Ser pessoa. Sobre o Atentado em Manchester e a resposta a Salvador Sobral.

  1. Cara colega
    Ser pessoa. Ponto de interrogação.
    Não consigo rever-me numa única frase do seu texto…Será que falamos a mesma lingua? Será que ambos somos médicos?
    Será que o sofrimento humano deve continuar a ser notícia todos os dias? Acha que é viavel divulgar a dor de todos os que sofrem neste mundo?
    Será que a mediatização do terror retira a dor aos que direta ou indiretamente sofrem com o atentado?
    Será que um sociopata que esteja predisposto a espalhar o terror em nome de um Deus não anseie por a mediatização da sua proeza como veículo de espalhar o terror e de divulgação do seu nome enquanto suposto mártir?
    Julga que os media substituem a lei na determinação da gravidade de um crime ?
    Como médica sente-se no direito de fazer juízos de valor no decurso na sua atividade profissional?
    Artista com mãos delicadas? Os artistas não sabem o que é doença, sofrimento e morte? Refletiu antes de escrever tal atrocidade ?
    Ter visto uma criança na mesa da autópsia dá-lhe legitimidade para julgar a humanidade daqueles que não viram ?
    A ” moda é defender o islão”, qual devia ser a “moda” atacar o islão? Pensou nas vítimas muçulmanas e familiares muçulmanos enlutados pelo ato de um sociopata que resolve cometer uma atrocidade em nome de uma religião que ensina o contrário?
    “Desbotada por um animal negro feroz, um sol preto, dentes para não sorrir…” Não acha que deve delegar as capacidades artistístas para quem as tem? Para quem é artista?

    “Sentir é também sentir a dor dos outros. Não é ser médico, é ser pessoa”
    Julga que a empatia, que é obrigação do médico, pode ser substituida pela veleidade de sentir a dor dos outros como sua?

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